Eu até já tinha desistido de te amar. Juro que tinha. Estava determinada a te olhar com os mesmos olhos que tu me olhas. Mas esse teu sorriso, meu bem... É impossível amar esse sorriso sendo apenas amiga! E amar o teu abraço, as tuas piadas sem graça, o teu jeito desajeitado. E amar cada detalhe. É impossível te ver com olhos de amiga. Eu estava determinada, juro. Mas então tu vieste com a ideia de assistir uma série, lembras? A menina dizendo que não queria que o menino dormisse na poltrona e ele sem entender nada. Ouvi tu dizeres que ele era burro, que não percebia que ela o amava. E senti vontade de gritar: eu estou aqui e tu não percebes também! Mas fiquei quieta, como sempre. Receio estragar o teu olhar de amigo. Receio estragar o teu sorriso. Esse sorriso que me tira o juízo. Esse sorriso que não posso mais ver com estes olhos. Deixe-me vê-lo com os meus olhos? Eu já tinha desistido de te amar. Juro que tinha. Agora desisti de tudo pra poder te amar.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
“Você consegue um bom emprego na hora que bem entender? Você descola um amor do dia para a noite? Se entrar num banco, sai de lá com um empréstimo sem burocracia? Se você respondeu sim para todas estas perguntas, parabéns. E fique atento para o horário de partida do seu disco voador, pois a qualquer momento você terá que voltar para o seu planeta. Entre nós, terrestres, o sim é uma resposta rara. Na maioria das vezes, não há vagas, não querem editar nossos poemas, não temos fiador, a garota não quer ouvir uns discos na sua casa, o garoto não quer usar camisinha e o guarda de trânsito não foi com sua cara e vai multá-lo, sim senhor. Não está fácil pra ninguém. Ao contrário do que possa parecer, esta não é uma visão pessimista da vida. As coisas são assim, dão certo e dão errado. Pessimismo é acreditar que ouvir um não seja uma barreira para realizar nossos planos. Tem gente que fica paralisado diante de um não. Nunca mais vai à luta. Já o otimista resmunga um pouco e em seguida respira fundo e segue em frente. Quando eu tinha 17 anos, mandei uns versos para um concurso de poesia. Não ganhei nem menção honrosa. Daí entreguei meus versos para o Mário Quintana avaliar. Ele não respondeu. Neste meio tempo eu estava apaixonada por um cara que ignorava a minha existência. Quando eu não estava pensando nele, fazia planos de morar sozinha, mas o meu estágio não era remunerado. Aí quis viajar para a Europa, mas não consegui entrar num programa de intercâmbio. Surpreendentemente, não passou pela cabeça a ideia de me atirar embaixo de um caminhão. Hoje tenho nove livros publicados, sou casada com o homem que amo, tenho a profissão dos sonhos e viajo uma vez por ano, e tudo isso sem ganhar na mega sena, sem cirurgia plástica, sem pistolão ou pacto com o demônio. O segredo: cada não que eu recebi na vida entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Não os colecionei. Não foram sobrevalorizados. Esperei, sem pressa, a hora do sim. O não é tão freqüente que chega a ser banal. O não é inútil, serve só para fragilizar nossa auto-estima. Já o sim é transformador. O sim muda a sua vida. Sim, aceito casar com você. Sim, você foi selecionado. Sim, vamos patrocinar sua peça. Quando não há o que detenha você, as coisas começam a acontecer, sim.”
| — | Martha Medeiros |
sábado, 8 de novembro de 2014
domingo, 2 de novembro de 2014
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